cartinha número 20


olá amigos!

chegamos na edição 20 sem um título pra essa newsletter. títulos são difíceis. eu ainda não tenho um pro gibi que estou trabalhando faz.. anos! o nome original é ruim e a minha segunda opção "ada e o fantasma" já existe. estou pensando em "tem um fantasma no meu quarto", se você tivesse 12 anos e enxergasse um gibi com esse nome você pegaria pra ler? não tem ninguém com 12 anos aqui pra eu perguntar.




esse mês estreou a exposição do fantaspoa: riso da medusa. foi a primeira vez que fiz uma curadoria: achei trabalhoso e extremamente divertido. vão lá dar uma olhadinha, tem umas artistas muito talentosas e o site ficou legalzão.

se você curte cinema fantástico dá uma conferida no evento, eu fquei MUITO faceira com esse convite porque eu admiro esse evento demais: ele já é um clássico porto alegrense. e essa versão é toda online e gratuita.


desenho da camila torrano


eu tô participando com uma animaçãozinha (um gif animado, na real). quem colocou o som foi o velho!




acho que insônia virou um problema comum atualmente né. eu sempre tive um sono meio complicado: já tive épocas em que praticamente não dormia e precisei de medicação. aí essa fase passou e eu virei uma pessoa com sono muito leve, o que acabou me levando a criar uma série de rotinas pra dormir. aí chega 2020 e com pandemia e ansiedade astronômica, todas as minhas rotinas pararam de funcionar. até que tive a ideia de ouvir um podcast quando a crise é mais forte. mas não pode ser qualquer podcast: tem que ser um em que a pessoa fale numa voz calma, quase um asmr. eu comecei ouvindo os contos lidos pelo levar burton, mas acabei tendo pesadelos. aí mudei pro huberman lab, que basicamente é um cientista explicando ciência para dummies, esse funcionou bem. e agora estou nessas aulas de francês.

se aprendi francês ou ciência? não, mal sei falar croissant. mas é uma língua muito boa pra dormir, recomendo.



eu ando tendo cada sonho bizarro, pelo menos são bem frequentados.



esses dias fazendo uma limpa aqui encontrei essa história baseada em fatos reais de lá de meados de 2017 e esqueci totalmente. tava marcada como "inacabada" e é tão ruim que é quase engraçada:


O ralo da pia

Não lembro quando, mas um dia o ralo da pia sumiu. Não sei se quebrou ou onde foi parar. Eu deveria ter arrumado isso, mas fui adiando. Era um buraco tão pequeno. Um problema tão pequeno. Esquecia completamente do ralo durante o dia. Só lembrava dele quando ía ao lavabo.

Um dia vi uma aranha enorme e marrom em cima da pia. Será que ela saiu do ralo? As janelas estavam bem fechadas. Era grande e assustadora então eu decidi matá-la com veneno. Comecei a jogar o spray e ela fugiu pra trás do enxaguante bucal. Nesse momento eu ouvi um barulho do ralo, me aproximei dele e, pra meu horror absoluto, uma enorme barata saiu dali. Esse é o momento de revelar a minha fobia de baratas. Aranha é ok perto de barata. Cobra é ok. Urso é ok, tubarão é ok. Mas barata não. Barata não dá, cara. Eu nem sabia que uma barata podia sair daquele ralo, que parecia tão pequeno. De uma forma bizarra a barata era gigante, parecia muito maior que aquele buraquinho do ralo. O veneno deve tê-la feito sair. Enfim, agora eu tinha dois problemas nojentos. Ou talvez mais, quem sabe o que mais poderia ter subido por aquele ralo sem que eu percebesse. Em pânico dei umas rajadas de veneno no ar e bati a porta do banheiro, tranquei e ainda coloquei toalhas no vão da porta. Precisava sair logo e pensei foda-se quando voltar eu resolvo isso.

Joguei veneno por toda a casa antes de sair.

Quando voltei decidi deixar o banheiro fechado. É apenas o lavabo, podia ficar muito tempo apenas com um banheiro. Na verdade, podia ficar pra sempre com apenas um banheiro. Então o “banheiro da barata” ficou fechado por semanas. Um dia um amigo veio visitar. O banheiro da barata estava fechado há tanto tempo que esqueci completamente dele. Saímos de casa e ao voltar vi que o banheiro da barata estava aberto. Meu amigo o usou e deixou a porta aberta, para o meu desespero. Mas não havia barata nem aranha lá dentro. Meu amigo não viu nada. Pensei aliviada que o problema se resolveu sozinho. Coloquei uma tampa mprovisada no ralo e fui dormir.

Mas não consegui dormir. E se a barata e a aranha ficaram esse tempo toda escondidas no banheiro, esperando uma oportunidade para sair? E se outras coisas tivessem subido pelo ralo e ficaram esse tempo todo em silêncio, esperando uma oportunidade de liberdade? E se a barata e a aranha viraram amigas unidas unicamente pelo ódio contra mim, a pessoa que as trancou e envenenou? E se elas tivessem dado à luz a um tipo novo de inseto nojento, uma barataranha cujo único objetivo de vida é buscar vingança?? E se a tampa do ralo nunca tenha sumido de verdade, mas tenha sido calculadamente removida pelas coisas que moram dentro do ralo da pia. depois de ler isso, vocês merecem ler esse trecho do livro do van gogh:

"Como era inevitável, tendo o pincel encostado na tela, o cuidadoso planejamento de noites e mais noites colidiu com o ímpeto afoito da tinta. Para um homem cujos entusiasmos não conheciam paciência nem freio, as infinitas permutações de cor e toque ofereciam uma ocasião irresistível para o improviso: uma excentricidade espontânea no traçado, um choque inesperado de cor, um ardor no empastamento, um voo lírico do pincel. Cada desvio, cada acaso, cada inspiração desencadeava uma nova rodada de cálculos, enquanto as semanas de planejamento se digladiavam com o pincel numa renhida dialética de intenção e resultado. As sessões de trabalho, disse ele, pareciam uma “luta de esgrima”, na qual se enfrentavam “a intensidade do pensamento” e “a tranquilidade do toque”. Vincent entendia bem essa disputa e, a cada vez, defendia um ou outro oponente. Num dia insistia na necessidade da rapidez, citando o campeão de vendas Monet e o imortal Delacroix. Mas, quando Theo questionava o consumo de tinta ou os resultados apressados e imprevisíveis, insistia que cada pincelada e cada escolha de cor tinham sido determinadas de antemão, citando Monticelli, “o colorista lógico, capaz de realizar os cálculos mais complicados, subdivididos segundo as escalas de tom que estava pondo em equilíbrio”. Em outros dias, responsabilizava as ventanias furiosas do mistral pela turbulência na execução, comparando-se a Cézanne, que também precisava domar um “cavalete oscilante”. Mas a verdadeira ventania que desequilibrava o cavalete de Vincent e lhe fazia tremer a mão era a que zunia dentro de sua cabeça. Com efeito, ele trabalhava melhor sob pressão, fosse uma tempestade na praia em Scheveningen, o mistral feroz do Crau ou as vozes acusadoras do passado. Apenas o atrito — entre ele e as forças da natureza, entre a esperança e a experiência, entre o planejamento cuidadoso e o ardor evangélico, entre o ditame cloisonista de simplificar e sua necessidade obsessiva de persuadir —, apenas o atrito podia induzir o “estado febril” de criatividade do qual, a seu ver, nasciam todos os seus melhores trabalhos. Como escreveu: “Dependo da exaltação que me vem em certos momentos, e então me entrego a extravagâncias”. Descreveu a “lucidez terrível” que o acometia naqueles momentos, “quando a natureza é linda, não tenho mais consciência de mim e a pintura vem como num sonho”." (from "Van Gogh: A vida" by Gregory White Smith, Steven Naifeh, Denise Bottmann)

fiquem bem!


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